segunda-feira, 21 de março de 2011

Springtime...













...has just landed!

Jackpot!

Parece que esta semana vai haver um Jackpot chorudo e memorável no Euromilhões. E para muitos parece que só assim vale a pena jogar. E eu já pressinto as aspirações compactuantes com Deus e as filas intermináveis nos postos de depósito de apostas. E os balões mentais que denunciam os carros topos de gama, rasteiros e barulhentos, duplexes voltados para o mar, viagens para destinos com água azul turquesa, jóias e todo o tipo de gadgets, o “queria muito mas já me cansei”, a troca do “para quê?” pelo “porque sim!”. E a inveja que se ia fazer aos vizinhos e "amigos" cujos hábitos e pertences se cobiçam. E claro, as eventuais promessas de ir a Fátima se a sorte (?) batesse à porta.

Não vivo uma vida asceta. Tenho os meus caprichos e excentricidades. Gosto de conforto e de sabores requintados. Gostava de ter dinheiro na quantia exacta de não ter de me preocupar com o dinheiro. Gostava de patrocinar sonhos em que acreditasse, de seguir sonhos, de ter dinheiro para projectos sociais, promover produtos nacionais, de recuperar ofícios antigos e a sua sabedoria ancestral, de dar dignidade a sem-abrigo e animais abandonados, de viajar sem rumo e sem data certa para regressar. Sei que com o jogo este cenário podia ser alcançável contudo, facilmente desviado ou corrompido.

Na verdade raramente jogo. Costumo registar o meu boletim, quando combinações de números vêm ao meu encontro, quando encontro boletins antigos e eu fico sem perceber se é um sinal, se deva ajudar a Vida a mudar o seu / meu rumo. Quando percepciono que não ganhei o tão famigerado prémio sinto um pouco de frustração e muito alívio. Gostava de receber quanto muito, um segundo prémio…o Jackpot nunca!

Na verdade, tantas vezes vou vaguear para livrarias quando sei que as respostas estão nos livros que tenho em casa por ler. Tantas vezes o equilíbrio só chega no silêncio. Quantas vezes o que precisamos é unicamente de pele, de olhar e suspirar. Ou de um banho quente, de uma chávena de chá, de palavras balsâmicas e de uma noite bem dormida. De ficarmos sossegados, de permanecermos nos nossos ideias, de não nos dispersarmos.

De certa forma, gostava de me ver de batuta a orquestrar uma vida aos meus olhos mais justa ainda que acredite que a verdade nunca está no primeiro olhar, que há uma ordem onde as injustiças fazem sentido. Por outro lado, quero manter os meus rituais; quero libertar-me de responsabilidade social, quero saber que a minha família não corre riscos nem ameaças por motivos financeiros, quero andar sem guarda-costas, não quero correr riscos de ter amigos oportunistas, de analisar investimentos, de ler os livros de instruções de toda a tecnologia que adquirisse, de me materializar. Acima de tudo, não quero ter de procurar sofregamente o foco, o discernimento e clarividência numa dança inebriada e vertiginosa, repleta de estímulos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Saudade desmesurada!

...faz hoje dois anos mas parece que foi ontem!
Recupero este texto porque acredito que as palavras escritas, (re)lidas e sentidas são uma forma de chegar a Ti!


Querida Júlia:

“Isto não podia ter acontecido…”, “é terrível demais para ser verdade”, “o que vai ser da Barbara e do Eduardo?!” foi o que balbuciei quando fui aturdida às 4 da manhã com uma campainha incessante que anunciava a tua morte. Talvez não ter ouvido o telemóvel fosse uma defesa inconsciente para fazer perdurar por mais uns momentos a certeza de que te tinha entre nós.
Pensei que se tratasse de um pesadelo… esperei acordar rápido desse tormento e sentir o alívio e conforto de tudo não ter passado de uma ilusão e poder voltar a dormir… afinal a lógica da vida deveria conferir uma espécie de imunidade, por algum tempo, a quem perde alguém muito querido como nós perdemos, faz hoje 2 meses. Ainda tive esperança de poder ter esperança… mas logo percebi que tinha sido brutal e fatal. A tua morte teve a força que governou a tua vida… afinal de contas, nunca foste de deixar as coisas a meio. Sempre possuíste uma força desmesurada, que te permitia alcançar o que te atrevias a sonhar. E até a Natureza tu desafiaste e fizeste impor a tua vontade... mas fazia-lo por pura convicção, por entenderes que era o teu caminho, a tua verdade e nunca, por teimosia, arrogância ou competitividade… aliás, as tuas vitórias nem sempre eram anunciadas por ti…

Na verdade, orquestraste a tua vida, como se tratasse de uma bela melodia… controlavas o tempo, as palavras, as acções e as coisas apareciam feitas como por actos de magia e sem qualquer esforço… nos últimos tempos descobri em ti uma outra qualidade: a sensatez, pois apercebi-me que os teus pontos de vista eram ponderados, exímios e com grande sabedoria… Ao mesmo tempo, a tua energia exaltava de ti de forma vibrante e nada ficava indiferente à tua passagem… e por isso, ás vezes dizíamos em jeito de brincadeira, que eras um perigo para fazer certos trabalhos mais delicados e chamávamos-te “espalha-brasas”. Também te chamava “terror da capoeira” pois se fosse preciso entravas por ali dentro de faca em punho e matavas as galinhas que fossem necessárias para sustentar a família por uma temporada… e eu dizia que as galinhas quando te viam, pressentiam a morte com a imagem do esqueleto de capuz negro e foice na mão… e mal eu sabia que ela ia chegar até ti tão em breve…


Contigo aprendi que se pode ser guerreira e feminina ao mesmo tempo… as vezes notava em ti uma certa aura muito subtil de vaidade, que realçava o teu poder feminino… Em ti, vi a Deusa Atena pela sabedoria, inteligência e racionalidade (às vezes, camuflavas as tuas emoções) e que permitiu realizares-te profissionalmente… mas também encontrei a Deusa Deméter pelo teu instinto maternal, pela forma doce e exemplar como cuidavas dos teus filhos… e que te fez sentir realizada como esposa e Mãe.

E também eles e o pai estão a ser corajosos… estão a sofrer desmesuradamente, em silêncio, estão a tentar aceitar esta verdade tão atroz mas certos de que a tua curta existência valeu pena, ainda que a dor da tua partida seja dilacerante. De certo modo, sentem a responsabilidade de agir com a bravura que lhes contagiaste… A “irmã”, disse-me que Deus que lhes pegou pela mão… e eu quero acreditar que sim… que terão a protecção de Deus, a tua protecção… e garantidamente o nosso Amor.

Nos últimos tempos, acho que ambas sentimos uma necessidade de reaproximar a família… e por isso celebrávamos acontecimentos como a vindima, a apanha da azeitona, a ida às pinhas, como momentos únicos para partilharmos a alegria de estarmos juntos e tentarmos descobrir em que nos tínhamos tornado neste tempo que passou sem darmos por ela… O último Natal, que se avizinhava irremediavelmente triste, foi vivido com reverência, pois ao partilharmos a dor de não termos a Belita entre nós, partilhámos também a alegria de ainda nos termos e sentimos profundamente a falta que cada um nos fazia e por isso, arrisco a dizer que até foi mais intenso comparado com anos anteriores… O ritual de fazermos filhós e de irmos juntos às couves para a consoada ficará para sempre marcado pela tua ausência… restam as fotos, as lembranças e os planos desfeitos… e eu já sinto uma saudade infinita e uma vontade descontrolada de voltar atrás no tempo.

O teu coração, de viver tão intensamente, cansou-se e parou. Para mim, ele traiu-te pois nunca te advertiu para abrandares o ritmo ou teres cuidado… sei que terei de aceitar… mas primeiro, preciso de reviver cada momento que passamos juntas e lembrá-los até à exaustão… custa-me muito não me ter despedido de ti e de não ter desfrutado mais da tua companhia tão valiosa… por isso deixo-te estas palavras com a esperança de que as possas ouvir e sentir.

As vezes penso que se a tua última frase no MSN foi “a neve acabou, a recordação ficou…” e se nevou antes do teu funeral, se fez Sol no decorrer do cortejo e voltou a nevar quando terminou… é porque há qualquer coisa de divino em tudo isto e certamente, estarás em sintonia com o Universo…

Em nome de ti, pelo que foste, pelo que representaste para mim, tentarei perseverar o teu ser na tua obra mais valiosa, a Barbara e o Eduardo… serás sempre um exemplo a seguir e uma fonte de inspiração! Obrigada… nunca te esqueceremos!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Quando o Inverno Chegar...













...na verdade já se instalou! É tempo de recolhimento! De ficar em casa, de procurar uma lareira, de procurar a "felicidade do quentinho" entre um chá e uma manta, na companhia de um livro cúmplice... acima de tudo é tempo de permanecer, de suportar as agressões mantendo a nossa beleza! O calor dos dias chegará! É inevitável...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Este Outono que encerra...


















Não sei se olhei para este Outono que hoje encerra, como se fosse a primeira.. ou como se fosse a última vez!

Sei que foi especial...
e sei que terei de preservar sempre... a frescura do olhar!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Lado Luminoso da Crise

Antes de avançar, tenho de ressalvar que todos os efeitos da crise com alerta vermelho, com agregados familiares a passarem fome, sem emprego, sem rumo, sem estrutura e sem ferramentas para reagir estão excluídos deste post e são tratados por mim com a devida seriedade e solidariedade (dentro do que me é possível)! O que aqui se propor retratar é, acima de tudo, a mudança de hábitos e a alteração do quadro de referências de quem sentiu o abalo mas ainda não perdeu o controle…

Aguardo com alguma expectativa a chegada da crise… aliás, a crise já deu o ar da sua (des)graça mas decerto que o seu efeito corrosivo ainda vai só no início.

Aguardo, porque é inevitável. Quanto mais rápido melhor. E na verdade, não suporto momentos de transição. Uma vez atingido o limite com o pior dos cenários sabemos que é o ponto de partida para a atingir a recuperação. É uma espécie de “tudo para o abismo” para a seguir ocorrer a sua transmutação.

E enquanto permanecemos algo muda, tudo muda. A nossa percepção. Os preconceitos. As convicções. A nossa verdade. A vida.

A crise é uma viagem ao essencial. É um fogo purificador que por onde passa dizima…destrói, leva as nossas coisas sem pedir licença, deixando-nos no imediato com um cenário desolador, a preto e branco.

A crise rouba-nos o controle.

Sacode-nos!

Dizem que é cíclica. Talvez seja uma forma que o Universo arranjou para nos ensinar a lição do desapego.

No tempo preliminar, fingimos que não a vimos, que não era dirigida a nós… ostentámos os nossos cartões de crédito em tom desafiante como se nos conferissem uma espécie de imunidade. Como se se tratasse de um atalho ou de uma solução milagrosa para a transpor.

Ela foi paciente, ganhou força e agora será implacável.

Mas ainda assim, na rendição encontro beleza, profundidade e alternativa. Senão, vejamos os verbos que materializam a jornada para suportar a crise:


*Consertar* Seleccionar* Ajudar* Partilhar* Aconchegar*

*Criar* Recuperar* Trocar* Cuidar* Superar*


Consertar

Com a varinha de condão do poder económico o que outrora se substituía rapidamente ao mínimo sinal de fraqueza, agora olha-se novamente, procura-se entender, procura-se dar uma segunda oportunidade. Até damos vida a móveis e objectos esquecidos.

Seleccionar

Com a crise, apuramos as nossas escolhas, aprendemos a separar o essencial do supérfluo, exploramos as razões, escutamos as nossas motivações, enfrentamos as verdadeiras necessidades que pretendemos preencher… uma espécie psicanálise antes de chegar à caixa. E ficamos mais livres do que abdicamos!


Ajudar

O Banco Alimentar da Luta contra a Fome atingiu valores históricos num ano em que os portugueses se encontram financeiramente tão debilitados. Porque o verdadeiro conceito de dar passa não por prescindirmos do excedente mas de algo que também nos é essencial. Ficámos mais humanos, mais atentos à realidade do outro, às suas necessidades. O nosso coração ficou mais comovido, mais generoso.

Por outro lado, começamos a deixar o orgulho de lado e ganhamos a coragem de voltar a proferir as palavras tão difíceis de verbalizar “peço-te ajuda”.


Partilhar

Nesta jornada, voltamos a ter o comportamento de quando éramos estudantes… partilham-se livros, conhecimentos, ferramentas, música, filmes, roupas, boleias… E como diz o meu amigo T “ as coisas boas partilhadas não se perdem, ampliam-se”.

Aconchegar

Com a crise, aconchegamo-nos em casa. Sentimos protecção e conforto. Abrandamos o ritmo. Lêem-se livros que ainda se encontram intactos muitos deles adquiridos nos tempos áureos. Temos tempo para aprender. Arrumam-se armários (e desfazemo-nos do que já não nos move), gavetas, organizam-se fotografias, bilhetes e recordações, colocam-se etiquetas, experimentam-se novas receitas. Renova-se a disposição dos móveis. Damos espaço para o novo que um dia há-de vir. Vêem-se e revêem-se filmes indispensáveis. Contactam-se amigos menos frequentes.

Criar

Para enfrentar a crise, tornamo-nos contorcionistas de vida, inventamos receitas com restos de comida, arranjamos novas oportunidades de negócio (como aquele senhor desempregado que começou a vender almofadas terapêuticas de caroços de cereja), deixamos a descoberto o nosso potencial criativo. Fazemos bricolage. Deixamos de comprar e inventamos soluções. Semeamos plantas aromáticas na varanda. Descobrimos dons.


Recuperar

Na procura de soluções voltamos a ouvir os ensinamentos ancestrais. Experimentamos mezinhas utilizadas pelas nossas avós. Fazemos alquimia. Trocamos o químico pelo biológico, os refrigerantes pelo chá. Deixamos de ir a centros comerciais e preferimos ir a feiras e mercados, pela manhã. Fazemos piqueniques e longos passeios a pé. Descobrimos o nosso país.

Trocar

Trocamos toxicidade por depuração. Trocamos bens ou serviços sem a presença do elemento pecuniário remontando ao período troca por troca. E desejamos encontrar a roda da fortuna.


Cuidar

Sob o signo da poupança, abranda-se o consumo. Produzimos menos resíduos. Esprememos embalagens. Preferimos chávenas de vidro em vez de copos de plástico. Levamos sacos para o super-mercado. Poupamos água, luz e recursos. As pessoas optam por transportes públicos outras, aderem ao car-sharing. As nossas deslocações são ponderadas. E quando damos por ela, estamos envoltos em práticas ambientais. O ambiente agradece!


Superar

Nas reportagens a que tenho assistido acerca do tema, considero notáveis os casos “de dar a volta por cima” com uma grande dose de sacrifício pessoal tal como os casos de queda, com a cara a descoberto. Pessoas que um dia tiveram uma vida faustosa num mundo de ostentação, muitas à custa do seu próprio trabalho e que se afundaram. E deixarem de o mascarar e, acima de tudo, assumi-lo publicamente, revela nobreza de alma e a certeza de que essas pessoas foram talhadas para o sucesso.


Na verdade, a vida é uma peça de teatro sem direito a ensaios. E podemos ficar apegados ao cenário ou viver a nossa história com os papéis que nos são atribuídos, quer sejamos protagonistas ou não. Viver é explorar a sua realidade com a certeza de que seremos melhores pessoas quanto maior e diversificado for o espectro de emoções percepcionadas, exploradas, sentidas e vividas.

E depois um dia partimos, apenas com a bagagem do coração. Tudo o que deixamos, tudo o que restou de nós, como diz o José Luís Peixoto, agride quem nos amou. Torna-se difícil de arrumar. Tudo o que justificou lutas incessantes, dor, esforço, sacrifício, orgulho e até discussões permanece intacto, às vezes ao abandono e a ganhar ervas daninhas, a desafiar uma existência maior em comparação ao nosso prazo de validade.

Em última instância, resta-nos a fé, a esperança, a certeza de uma ordem maior que equilibra e sabe o que faz… e também o consolo das palavras sábias do Khalil Gibran… “onde escavar a vossa tristeza caberá a vossa alegria”.

O Sol da Meia-Noite!

A noite traz palavras de silêncio, sussurros, murmúrios, promessas e convites inevitáveis que se desfazem com o nascer do dia que nem algodão doce na boca…


A noite ousa e pousa sobre nós o véu da sensibilidade

Dá-nos doçura…

Criatividade

Foco, concentração

Leva-nos a dançar!

A noite exalta, depura, amplia… mas a escuridão instalada pede aconchego e recolhimento!

A noite faz chorar o que o dia faz congelar.

Torna as pessoas mais bonitas!

À noite, apenas brilha o que tem luz… enquanto as sombras se densificam e ficam sinuosas.

À noite, descobrem-se caçadores e seguidores de estrelas que pedem orientação e clarividência.

As acções têm eco, têm impulso, têm força, têm purpurinas, têm volúpia...

E por isso, há gestos, conversas prolongadas, mensagens trocadas, poemas, notas soltas, livros, músicas, verdades e segredos que só se podem revelar à noite. A luz do dia crua e racional ser-lhes-ia letal.

Acredito que nos países nórdicos em que os dias e as noites são adquiridos por atacado, seja mais fácil carregar as baterias e dar ritmo ao coração, para o colocar por um longo período a trabalhar… a partilhar, vibrar, amar, pedir desculpa e perdoar.

Talvez o avulso dos dias, nos dê instabilidade… a alternância incessante entre o dia e a noite deixa-nos inquietos; não nos deixa permanecer…

Às vezes quero prolongar o dia…

Às vezes quero prolongar a noite…e nestas alturas sinto saudades de ouvir o meu Pai perguntar à minha Mãe se fazia serão… ou a combinar o que seria feito ao serão… e o serão parecia um tempo suspenso entre o jantar e a hora de dormir, que durava o tempo que se quisesse… e por isso havia tempo para conversar, para ler, ver televisão, para ouvir o que o meu Pai escrevia... Às vezes nos serões de sexta-feira, colocava-se um lençol branco na parece e até víamos slides projectados que não nos cansavam de tanto os vermos vezes sem conta.

A noite é o Inverno dos dias… que pede protecção e o calor de uma lareira…

…ainda que eu também goste das noites quentes de Verão… só é pena que já não encontre pirilampos e já não salte as fogueiras nos Santos Populares.

A noite não me deixa adormecer…

Porque a noite… destapa e desperta memórias!