sábado, 20 de novembro de 2010

Facebook - A teia social!

Bom, confesso que tenho de vir aqui partilhar a correr estas palavras antes de ser influenciada pelo filme “A Rede Social”. É certo que já muito dissertei acerca de vantagens e inconvenientes sobretudo na fase de resistência… na fase em que os influenciadores me faziam crer que se eu aderisse havia a promessa de contactos mais frequentes como se estes dependessem da facilidade e não da vontade. Costumava ripostar… “tenho o telemóvel ligado 24 horas e sou das pessoas que ainda gosta de receber cartas e postais de Natal!” .

No tocante à fase de adesão ao Facebook li algumas crónicas no jornal i, do Edson Athayde, que me deliciaram e que até ao momento considero que foram as que melhor souberam retratar esta “virtualidade”.

Estando ciente dos riscos, ciente da minha vontade e não querendo amolecer perante as pressões mas também não querendo “enrijecer” com as minhas convicções… decidi aderir à experiência, afinal há sempre um prazo estipulado pela lei para anular os contratos e também aqui seria possível reverter facilmente a situação.

Ao início, na primeira semana, analisei a coisa como se tratasse de um objecto de estudo… e decidi investigar cada recanto. Sim, fui um bocadinho cusca… vi os amigos dos amigos, as fotos dos amigos, os álbuns de férias, os comentários entre amigos, os colegas-amigos, os amigos do chefe, os amigos (colegas) do presidente... Ao fim de uma semana estava cansada, vazia, tinha menos horas de sono e, uma vez saturada da vida dos outros, regressei à minha. Percepcionei uma teia invisível que envolve as relações expostas, que permite viver uma espécie de second life com acções à distância de um click… afinal, há pessoas que pedem amizade (soa tão estranho esta expressão e no mínimo, é pueril) mas que depois baixam os olhos quando se cruzam connosco… e eu, nestes momentos, lembro-me da inconsequência dos brinquedos para crianças cheios de botões… e constato que também os adultos têm os seus brinquedos cheios de botões… mas estes dão choque, movem acções, consciências, percepções e ilusões.

Comecei a receber convites, dos amigos, potenciais amigos, conhecidos, de ex-amigos, colegas, de ex-colegas, exes e futuros qualquer coisa… e actualmente, por mais que queira travar o contador da amizade virtual, mesmo excluindo quase sempre pessoas desconhecidas (também os dados do perfil da pessoa fazem com que as coloque excepcionalmente à experiência durante 15 dias) torna-se difícil recusar o colega do lado que vai interiorizar a nossa recusa com animosidade tal como enfrentar o constrangimento do parente afastado que enxotámos, ao reencontrá-lo num almoço de família (mais alargado). E quando se começa a perder o controlo da plateia tem que se o recuperar na superficialidade dos posts que partilhamos (sim, eu sei que existem filtros, mas não me parece que vá dedicar tempo a fazer essa gestão).

Percebi que seria inevitável permanecer…

Apercebi-me que se tornou um hábito, que se gasta tempo valioso (não, não dá para suavizar com a palavra “investe”) e que a sua consulta é um impulso antes de iniciar algo… é como ir ao café do bairro, pela manhã, à hora de almoço, no final do dia e sempre que possível… já faz parte, não se questiona… E o botão refresh torna-se na habitual pergunta “então e novidades?!” (felizmente não nos devolve “Só no Continente”, valha-nos isso!) e fazemos tantos refreshs quanto queremos novidade na nossa vida.

Ao navegar pelo Facebook há cerca de um ano, com alguns mergulhos, não posso deixar de partilhar o que avisto nas profundezas ou na espuma, à superfície!

Para começar, acho sempre piada ao random da selecção de seis fotografias retiradas do álbum dos amigos… O acaso leva a que se consiga misturar as fotos dos homens do passado, lado a lado, alinhados e todos direitinhos, que nem a página da necrologia do coração, numa coexistência pacífica como se tratasse de um quadro de honra, ali… serenos, sem se “engalfinharem” uns com os outros. Passado e presente misturam-se, como num medley das nossas vivências, uma amálgama de histórias que nos move, moveu e comoveu… com tanto de engraçadas como de esgotadas.

Depois, há a necessidade de bloquear tudo o que sejam jogos virtuais, restaurantes, quintas, aquários, beijos e abraços virtuais… Cheguei a pensar que seria bom ficar viciada numa destas coisas, pois decerto que treinaria a minha disciplina, organização e gestão de tempo mas nunca me aproximei destas zonas pantanosas. Quando aderi andava tudo louco a pedir pregos e tábuas para celeiros, a emprestarem tractores uns aos outros e eu, que acalento o sonho de ter uma horta e um jardim bem reais, questionava-me se estas acções não iriam influenciar as pessoas a quererem ir viver para o campo ou simplesmente a plantarem uma horta na varanda. Percebi rapidamente que não! Como certas pessoas só estavam no Face para estas celebrações ou para falarem de futebol, foram logo desviadas da auto-estrada dos posts.

Na red carpet do Facebook passa de tudo…

Palavrões disfarçados por caracteres especiais (ou não), estados de espírito que pedem colo, reticências, citações invasivas da Bíblia, citações invasivas do Alcorão, mensagens sinuosas e tenebrosas, desabafos, dúvidas, inseguranças, teasers que nunca se revelam e ainda afugentam quem tenta descobrir o enigma, mensagens subliminares quase sempre a indicarem o oposto, mensagens preliminares, tratados de amizade, provas públicas de amor, barómetros de vida social (tipo, “if estou sempre em festa rodeado de amigos sorridentes then sou automaticamente feliz!”), recados para exes, agendas diárias escancaradas (“’tou aqui e depois vou ali e esta informação é indispensável para a vossa sobrevivência”), posts crónicos bazófias (as demonstrações de grandeza não são esporádicas para fazer uma invejazinha saudável aos amigos, reunir uma meia dúzia de comentários provocadores, aumentar o deleite e seguir em frente… Não! Há certas pessoas que só aparecem para cumprirem este propósito!).

Às vezes, o lixo mental que corrói os nossos pensamentos e que nem sempre é verbalizado… é varrido directamente para a rua do Facebook.

…Há os que consultam horóscopos, recebem respostas tontas e que ainda as partilham como se tivessem encontrado a Pedra Filosofal!

Neste percurso, encontram-se também os utilizadores tipo “fiscal da ASAE”: raramente se vêem no Face, aparecem de rompante, deixam uma série de comentários e voltam a desaparecer, sem sequer nos darem tempo para reagir…

Há ainda uns mais matreiros, a que eu designo por “camuflados”… como nunca deixam uma ar da sua (des)graça ao publicar um post ou a fazer um comentário deduz-se que estão bem longe da lida do Facebook mas, na verdade, estão muito atentos, a observar milimetricamente todos os movimentos e até estão munidos de binóculos!!!

…Assim, é preciso pegar numa escumadeira para retirar as músicas que podemos vir a conhecer, reconhecer, ou as que nos deixam numa jukebox imaginária, as citações, os eventos que poderiam escapar, as curiosidades, os pensamentos, as cumplicidades, os insólitos que nos fazem rir e sorrir, as mensagens tardias consoladoras, a partilha de gostos comuns, os comentários balsâmicos e terapêuticos que tornam certos momentos menos dramáticos, as fotografias que nos inspiram e nos movem, os amigos resgatados do passado que faz sentido trazer para o presente…

... Às vezes, quando ando pelo Face, sinto que caminho sobre brasas, que há esconderijos que não se devem espreitar, mas também me sinto a voar de balão ou ter a emoção de uma feira de diversões…

Estando ciente que também eu possa usar ou cair de vez em quando, consciente ou inconscientemente, nas armadilhas do Facebook, tenho o lema de que… um post ou deve acrescentar algo à vida das pessoas ou arrancar-lhes um sorriso! E tudo à distância de um click!