domingo, 25 de abril de 2010

O dia do teu aniversário!

Apesar de não estares fisicamente entre nós, não posso deixar de lembrar o dia em que celebravas o teu aniversário... simplesmente porque invoca o momento em que tudo começou e que permitiu fazeres parte da minha vida... Por isso partilho o texto que te escrevi e que releio muitas vezes como forma de matar saudades... e a tua fotografia que assinala o início de um processo doloroso e irreversível, vivido com muito Amor e dedicação!
(Foto tirada no dia que fomos saber o resultado da 1ª ressonância magnética - 07/09/07)
Querida Belita!

Há uns dias atrás, estava sentada no sofá, com a televisão ligada mas alheia, a pensar em ti… e uma frase veio ao encontro a mim e que dizia: “Não chores porque acabou mas sorriu porque aconteceu…”. E ainda que a dor de te perder seja dilacerante e o consolo não chegue através de uma frase feita, fui obrigada a sorrir e sobretudo a agradecer o privilégio de teres feito parte da minha vida…e fazendo agora a retrospectiva da tua vida…acho que ambas sabemos que valeu a pena!
Querida tia, como hoje reconheço a bravura do teu ser, a tua eloquência, a tua determinação, o teu amor por nós, a coragem para seguires o instinto do teu coração…
Sei que tiveste períodos difíceis, de introspecção, de tristeza… que afinal fazem parte da vida… mas sei também que em nenhum momento a tua alma deixou de revelar a sua grandeza e o teu poder feminino…
E plantaste um jardim como forma de expressão, deste vida a móveis antigos, deliciaste-nos com receitas novas que te atrevias a experimentar ou com os pratos e doces saborosos a que já nos tinhas habituado… a propósito, os biscoitos que fazíamos ficarão para sempre com o teu nome...
Dedicaste-te à pintura, às artes decorativas, aos lavores, tricotaste camisolas para nós que escolhíamos em revistas e em tudo isso ficou marcado a reverência dos teus gestos, o toque especial que nos fazia adivinhar que tinhas sido tu a criá-los.
Sempre foste sensível e atenta às pessoas que te rodeavam e também ao Mundo com o teu espírito crítico apurado… e até houve um dia em que decidiste consertá-lo um bocadinho à tua maneira, ao candidatares-te a Presidente da Junta… Lembras-te?
E o que muitos fazem pelo jogo do poder, tu fizeste-o por convicção e altruísmo. Para mim, foste a verdadeira vencedora porque afinal quem perdeu não foste, definitivamente, tu.
Valorizo também saberes ter esperado pelo “momento certo” e teres tido a coragem de saíres da tua zona de conforto e segurança, fechares a tua lojinha e seguires o teu desejo, a tua vontade… e sujeitares-te a ser “emigrante” aos 45 anos, por Amor.
E hoje, sei que amaste e foste amada. Tiveste um homem que te tratou com uma dedicação extrema, como tu o merecias, é certo, mas como poucos o faziam… e que está a sofrer desmesuradamente com a tua partida… Estamos todos!
E quando a doença chegou soubeste imediatamente aceitá-la… Nunca te vi revoltada…apenas com receio… mas a coragem faz-se também de medo, caso contrário chamar-se-ia inconsequência ou irresponsabilidade!
Querida tia, foi doloroso ver-te partir aos poucos…
Foi difícil ter conhecimento de inúmeros casos de sucesso, olhar-te nos olhos e eles gritarem que estavas gravemente doente e que não havia nada a fazer… quantas vezes o meu desejo e imaginação se converteram em raios de luz que aniquilavam essa massa negra que lavrava na tua cabeça, sem pedir licença nem autorização…
Foi difícil agarrar as lágrimas à tua frente pois se elas aparecessem seria uma prova de que também nós tínhamos perdido a esperança…
Foi difícil continuar a sorrir para ti, quando a certeza de que te íamos perder começou a percorrer-nos nas veias…
Foi difícil suportar a impotência de não te conseguirmos ajudar… e cuidar de ti foi a única forma que arranjamos para expressar e materializar o nosso Amor.
Querida tia, como disse Saint-Exupery “agora que partiste, nunca mais nos vamos separar”. O teu corpo atingiu o seu limite mas continuarás viva dentro de nós, em cada detalhe.
Obrigada por teres existido!
Obrigada por teres tocado a nossa vida e os nossos corações.

Sofia
10/12/08

sábado, 17 de abril de 2010

10 Palavras...


A Natália Rodrigues pediu-me dez palavras, baralhou-as e escreveu este texto lindo acerca de mim...

Naquela noite deitei-me tarde.
Adormeci olhando o crepúsculo pela janela do meu quarto.
E enrolada na minha coberta violeta, deixei-me levar pelas asas da noite.
Todo o meu dia havia sido desconcertante, tantas coisas por resolver, tantos assuntos por concluir, tantas respostas por dar, tantas palavras entaladas na garganta, tantos suspiros retidos, tantos desejos por realizar.
Deixei-me levar, derrotada pelo cansaço, ao encontro do mundo onde nada controlamos.
Ao encontro do lugar onde tudo se pode desfazer, com um abrir de olhos.
Ao encontro do espaço onde tudo cabe, e onde nós cabemos de qualquer forma.
Onde os perigos só duram horas, onde a vida só dura minutos, onde a morte é só uma ilusão, onde tudo tem um significado que não significa nada.
Deixei-me levar porque precisava muito abandonar a minha história, a reverência dos meus actos, e encontrar a sintonia dos meus passos.
Deixei-me levar porque senti que ficar comigo mais um instante seria demasiado penoso, para que pudesse suportar.
Adormecer naquela noite era o meu maior desejo.
E nesse intervalo entre a vida que dorme o tempo de acordar, ouvi o sussurro da noite.
Foi o som mais doce que alguma vez escutei.
A minha pele arrepiou-se, a minha alma estremeceu.
De onde poderia vir um som, capaz de fazer sentir a sua falta logo á chegada?
Embrulhada na manta violeta, não devo ter conseguido movimentar o meu corpo do mesmo jeito que estremeceu o meu espírito.
Mas no mundo da noite, enquanto planamos no vazio, tudo é possível.
E o sussurro continuou, tornou-se então em linguagem e esforcei-me para o entender, concentrei-me mais, e para o fazer em vez de fechar os olhos, abri o coração.
Pétalas… pétalas…
Pétalas?!
Deixei-me levar pelo ténue toque desse expirar da noite, e repeti vezes sem conta: pétalas.
E nessa noite em que depois de um dia desconcertante, desejei adormecer enrolada na minha manta violeta e entrar em sintonia com alguma coisa que me desse conforto, que nutrisse o deserto que sentia por dentro.
Nessa noite em que nas asas do sono abandonei a reverencia e fiquei sem jeito no meio da cama olhando o crepúsculo.
A noite em que ouvi o sussurro mais doce que algum dia imaginei existir, conheci o poder das pétalas.
Todas juntas formam uma flor.
Só uma é leve e frágil, voa com o vento, pisa-se sem querer, todas juntas são uma obra da natureza.
Pétalas, também somos nós. Sozinhos, não somos quase nada e juntos, ocupamos um planeta.
Todos os nossos problemas são os problemas do mundo, são capítulos de uma história que escrevemos juntos há muito mais tempo do que nos é possível recordar.
Não vale a pena, querer ser só uma flor sem perceber a beleza da pétala, nem querer ser só uma pétala sem perceber a beleza da flor.
Não vale a pena, pensar que somos únicos, sem perceber que é a diversidade que nos torna assim.
Não vale pena nada, senão soubermos render-nos á insignificância de aceitar que somos a pétala que faz a flor, que faz o jardim, que faz a natureza, que liga tudo.
Pétalas. Atiram-se no dia do casamento, decoram os bolos, fazem perfumes, atiram-se no dia da nossa partida.
E eu que estava tão revoltada, com um nó por desfazer, rendi-me ao sussurro, e senti a beleza de ser como uma pétala.
Quando acordei, estava feliz.
Afinal mais importante do que resolver tudo o que havia deixado, foi o facto de eu ter ganho um novo propósito: ser a flor da minha vida.
Procurar em cada pessoa o espaço para me encaixar e ajudar a criar a mais bela flor desse momento.
Deixar-me render pela insignificância, fez de mim uma pessoa muito mais forte. Muito mais completa.
Fez de mim uma pétala fascinada pelo jardim onde vivo.
Natália Rodrigues
Abril 2009

Obrigada, Natália! ;-)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Não te vou procurar...

Querido R.

Foste tão importante para mim que não consigo ter maus pensamentos a teu respeito…
E prefiro pensar que viajaste, que estás incontactável e que estas partículas que existem no silêncio talvez cicatrizem a minha dor até à extinção da lembrança ou me devolvam uma explicação lógica em que consiga acreditar.
Sempre analisaste a realidade de forma exímia e cheia de discernimento….e eu não me apercebi de era um assunto proibido fosse falar dos teus gestos e do que eu sinto /senti perante eles.
Senti a tua falta, a tua indiferença a tua ausência nos momentos presentes e quis falar-te disso… com a esperança que a nossa estrutura fosse inabalável, com a esperança que lesses a realidade e a verdade com os meus olhos, com a esperança de que quando dizias que éramos almas companheiras fossem para valer, com a esperança de que as mensagens que me enviavas a meio da noite quando estavas meio embriagado fossem verdadeiras. Mas tu sacudiste-me, sentiste que fui inconveniente, que invadi o teu espaço e por isso despachaste o assunto com a facilidade de um gesto mecânico. Não quiseste sequer discutir e eu cheguei a pensar que as pessoas que discutem têm a sorte de terem alguém do outro lado aflito por expor outro modo de leitura, ainda que os argumentos sejam descabidos ou soem a falso… e por isso, eu teria preferido ter discutido a sentir que a nossa amizade (ou o fim dela) fosse comparada a uma embalagem descartável e resolvida de forma civilizada.
E sabes o mais curioso? Não me arrependo… não me arrependo porque agi de coração, porque não consigo fingir que está tudo bem para evitar conflitos, porque se não te mostrasse o quanto me estavas a magoar estaria a trair a transparência que sempre tive contigo.
E percebo que os amigos são as pessoas que escolhemos e a quem confiamos o código secreto da nossa conta emocional. Num segundo eles podem fazer um desfalque, num segundo eles podem depositar uma fortuna. O mais importante é termos capacidade para confiar de novo o código, mesmo que traga risco associado e pior que uma quebra emocional é um coração enrijecido.
Fazes-me falta! Mas não te vou procurar…não por alimentar orgulho desmedido…(se sempre te expus as minhas fraquezas e fragilidades porque me armaria em forte, logo agora?!!) mas porque abalaste a confiança de tudo o que vivemos e do lugar que te concedi.
Não te vou procurar… porque sei que não vou encontrar o que perdi!

domingo, 11 de abril de 2010

Arte poética por José Luis Peixoto

Ao inaugurar o meu blog não posso deixar de partilhar o meu poema preferido... é lindo, brutal e lê-se sofregamente:

"o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?,que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido."

in "A Criança em Ruínas"

...Finalmente!

Ao escrever este texto cumpro não só uma resolução para 2010 mas acima de tudo um desejo de há muito tempo. Hoje senti o impulso do começo e acordei com vontade de ouvir a voz do Eddie Vedder na banda sonora do Into the Wild… talvez por isso, o alinhamento dos planetas esteja favorável! :-)
Aos 33 anos a memória já falha, os acontecimentos sucedem-se desenfreadamente sem termos tempo para os absorver pelo que tenho esperança que este blog sirva não só de backup das minhas vivências, como também seja uma “alfândega” que possibilite resgatar memórias, depurar os momentos, analisá-los com reverência e talvez descobrir-lhes um nível de entendimento e profundidade maiores.
Sei que a escrita liberta… sei que após o seu registo em papel (já sei, vou ter de na habituar a escrever directamente no pc!) os acontecimentos ficam mais suaves e mais resolvidos. Por isso, espero que a escrita flua e que consiga alcançar “a força secreta das palavras”… não por pretensão mas por conseguir ir ao encontro do meu Ser através deste “veículo”.

Tenho receios…

- que seja mais um projecto que não conclua;
- que fique “viciada” e que viva virtualmente a realidade; que deixe de “respirar” os momentos com a pressa de os registar num post (à semelhança de turistas que sacam fotos em catadupa sem sequer contemplarem o monumento);
- da exposição e da falta de mistério… ainda que os conteúdos obedeçam a critérios de forma a proteger alguma privacidade;
- que as minhas palavras possam causar incómodo ou má interpretação a pessoas amigas

…mas mesmo assim quero arriscar!

Espero que este blog seja, acima de tudo, um espaço de partilha em que, por breves instantes, consiga fazer sorrir… pela partilha da cumplicidade, por despertar uma lembrança, por inspirar!

Por isso vou inaugurar o primeiro post… e deixar fluir! ;-)

Até porque…

“Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.” Miguel Sousa Tavares