quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Lado Luminoso da Crise

Antes de avançar, tenho de ressalvar que todos os efeitos da crise com alerta vermelho, com agregados familiares a passarem fome, sem emprego, sem rumo, sem estrutura e sem ferramentas para reagir estão excluídos deste post e são tratados por mim com a devida seriedade e solidariedade (dentro do que me é possível)! O que aqui se propor retratar é, acima de tudo, a mudança de hábitos e a alteração do quadro de referências de quem sentiu o abalo mas ainda não perdeu o controle…

Aguardo com alguma expectativa a chegada da crise… aliás, a crise já deu o ar da sua (des)graça mas decerto que o seu efeito corrosivo ainda vai só no início.

Aguardo, porque é inevitável. Quanto mais rápido melhor. E na verdade, não suporto momentos de transição. Uma vez atingido o limite com o pior dos cenários sabemos que é o ponto de partida para a atingir a recuperação. É uma espécie de “tudo para o abismo” para a seguir ocorrer a sua transmutação.

E enquanto permanecemos algo muda, tudo muda. A nossa percepção. Os preconceitos. As convicções. A nossa verdade. A vida.

A crise é uma viagem ao essencial. É um fogo purificador que por onde passa dizima…destrói, leva as nossas coisas sem pedir licença, deixando-nos no imediato com um cenário desolador, a preto e branco.

A crise rouba-nos o controle.

Sacode-nos!

Dizem que é cíclica. Talvez seja uma forma que o Universo arranjou para nos ensinar a lição do desapego.

No tempo preliminar, fingimos que não a vimos, que não era dirigida a nós… ostentámos os nossos cartões de crédito em tom desafiante como se nos conferissem uma espécie de imunidade. Como se se tratasse de um atalho ou de uma solução milagrosa para a transpor.

Ela foi paciente, ganhou força e agora será implacável.

Mas ainda assim, na rendição encontro beleza, profundidade e alternativa. Senão, vejamos os verbos que materializam a jornada para suportar a crise:


*Consertar* Seleccionar* Ajudar* Partilhar* Aconchegar*

*Criar* Recuperar* Trocar* Cuidar* Superar*


Consertar

Com a varinha de condão do poder económico o que outrora se substituía rapidamente ao mínimo sinal de fraqueza, agora olha-se novamente, procura-se entender, procura-se dar uma segunda oportunidade. Até damos vida a móveis e objectos esquecidos.

Seleccionar

Com a crise, apuramos as nossas escolhas, aprendemos a separar o essencial do supérfluo, exploramos as razões, escutamos as nossas motivações, enfrentamos as verdadeiras necessidades que pretendemos preencher… uma espécie psicanálise antes de chegar à caixa. E ficamos mais livres do que abdicamos!


Ajudar

O Banco Alimentar da Luta contra a Fome atingiu valores históricos num ano em que os portugueses se encontram financeiramente tão debilitados. Porque o verdadeiro conceito de dar passa não por prescindirmos do excedente mas de algo que também nos é essencial. Ficámos mais humanos, mais atentos à realidade do outro, às suas necessidades. O nosso coração ficou mais comovido, mais generoso.

Por outro lado, começamos a deixar o orgulho de lado e ganhamos a coragem de voltar a proferir as palavras tão difíceis de verbalizar “peço-te ajuda”.


Partilhar

Nesta jornada, voltamos a ter o comportamento de quando éramos estudantes… partilham-se livros, conhecimentos, ferramentas, música, filmes, roupas, boleias… E como diz o meu amigo T “ as coisas boas partilhadas não se perdem, ampliam-se”.

Aconchegar

Com a crise, aconchegamo-nos em casa. Sentimos protecção e conforto. Abrandamos o ritmo. Lêem-se livros que ainda se encontram intactos muitos deles adquiridos nos tempos áureos. Temos tempo para aprender. Arrumam-se armários (e desfazemo-nos do que já não nos move), gavetas, organizam-se fotografias, bilhetes e recordações, colocam-se etiquetas, experimentam-se novas receitas. Renova-se a disposição dos móveis. Damos espaço para o novo que um dia há-de vir. Vêem-se e revêem-se filmes indispensáveis. Contactam-se amigos menos frequentes.

Criar

Para enfrentar a crise, tornamo-nos contorcionistas de vida, inventamos receitas com restos de comida, arranjamos novas oportunidades de negócio (como aquele senhor desempregado que começou a vender almofadas terapêuticas de caroços de cereja), deixamos a descoberto o nosso potencial criativo. Fazemos bricolage. Deixamos de comprar e inventamos soluções. Semeamos plantas aromáticas na varanda. Descobrimos dons.


Recuperar

Na procura de soluções voltamos a ouvir os ensinamentos ancestrais. Experimentamos mezinhas utilizadas pelas nossas avós. Fazemos alquimia. Trocamos o químico pelo biológico, os refrigerantes pelo chá. Deixamos de ir a centros comerciais e preferimos ir a feiras e mercados, pela manhã. Fazemos piqueniques e longos passeios a pé. Descobrimos o nosso país.

Trocar

Trocamos toxicidade por depuração. Trocamos bens ou serviços sem a presença do elemento pecuniário remontando ao período troca por troca. E desejamos encontrar a roda da fortuna.


Cuidar

Sob o signo da poupança, abranda-se o consumo. Produzimos menos resíduos. Esprememos embalagens. Preferimos chávenas de vidro em vez de copos de plástico. Levamos sacos para o super-mercado. Poupamos água, luz e recursos. As pessoas optam por transportes públicos outras, aderem ao car-sharing. As nossas deslocações são ponderadas. E quando damos por ela, estamos envoltos em práticas ambientais. O ambiente agradece!


Superar

Nas reportagens a que tenho assistido acerca do tema, considero notáveis os casos “de dar a volta por cima” com uma grande dose de sacrifício pessoal tal como os casos de queda, com a cara a descoberto. Pessoas que um dia tiveram uma vida faustosa num mundo de ostentação, muitas à custa do seu próprio trabalho e que se afundaram. E deixarem de o mascarar e, acima de tudo, assumi-lo publicamente, revela nobreza de alma e a certeza de que essas pessoas foram talhadas para o sucesso.


Na verdade, a vida é uma peça de teatro sem direito a ensaios. E podemos ficar apegados ao cenário ou viver a nossa história com os papéis que nos são atribuídos, quer sejamos protagonistas ou não. Viver é explorar a sua realidade com a certeza de que seremos melhores pessoas quanto maior e diversificado for o espectro de emoções percepcionadas, exploradas, sentidas e vividas.

E depois um dia partimos, apenas com a bagagem do coração. Tudo o que deixamos, tudo o que restou de nós, como diz o José Luís Peixoto, agride quem nos amou. Torna-se difícil de arrumar. Tudo o que justificou lutas incessantes, dor, esforço, sacrifício, orgulho e até discussões permanece intacto, às vezes ao abandono e a ganhar ervas daninhas, a desafiar uma existência maior em comparação ao nosso prazo de validade.

Em última instância, resta-nos a fé, a esperança, a certeza de uma ordem maior que equilibra e sabe o que faz… e também o consolo das palavras sábias do Khalil Gibran… “onde escavar a vossa tristeza caberá a vossa alegria”.

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